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“Aprendi muito com o black metal norueguês, mas era uma forma muito sombria de ver as coisas”: Nocturno Culto revisita 40 anos de Darkthrone

“Aprendi muito com o black metal norueguês, mas era uma forma muito sombria de ver as coisas”: Nocturno Culto revisita 40 anos de Darkthrone

Foi nessa época que a cena do black metal norueguês começava a ganhar força. Como era entrar na loja de Euronymous, a Helvete, e ter um lugar assim como loja de discos e ponto de encontro?

“Sim, as pessoas talvez esqueçam que era, de fato, uma loja de discos funcional. O Euronymous alugava todo o andar da loja, então era uma loja relativamente grande, mas com poucos discos. Conhecemos pessoas de outras partes da Noruega que frequentavam o lugar, e foram bons tempos, de verdade. Lembro que alguns meses depois do lançamento de ‘A Blaze In The Northern Sky’, entrei lá e dois caras estavam ouvindo o álbum nas caixas de som, com o disco nas mãos. Um deles me olhou com certo espanto e disse: ‘Você sabe o que fez?’. E eu respondi: ‘O que você fez?’. Algo tinha acontecido, e percebi que era por causa do álbum. Conseguimos transmitir aquela visão, e fico feliz que tenha ficado tão bom. Mas levou pelo menos um ano até eu perceber o impacto que o disco teve, porque não líamos revistas nem nada. Só agora entendo o que fizemos parte, e felizmente trouxemos algo novo para a mesa.”

O que você lembra sobre a atenção e a infâmia que o black metal começou a ganhar por causa das coisas que aconteciam na cena?

“Bem, nasci e cresci em Oslo, e me mudei de lá em dezembro de 91, antes de todas aquelas coisas acontecerem, porque eu sabia que algo estava para acontecer. Eram tempos mais, digamos, sérios. Todo mundo era jovem e fazia coisas malucas. Mas aproveitei a primeira oportunidade que tive para sair, e fui para bem longe de Oslo. Quando vi tudo aquilo no noticiário, não fiquei surpreso.”

Por quê?

“Eu poderia escrever um livro longo, o que não vou fazer, sobre ter estado lá, e é algo que vou levar comigo. Aprendi muito sobre muitas coisas. Mas era uma forma muito sombria de enxergar o mundo. Era quase como uma competição para ver quem era mais extremo. Acho que, para mim e para o Darkthrone, nosso interesse era a música, então para nós era um pouco estranho. Mas, sim, saí de Oslo cedo. Gosto de paz e tranquilidade.

Sempre pensamos: ‘Não precisamos de atenção pessoal’. Nossa filosofia sempre foi deixar a música falar por si. Tentamos colocar a música à frente de tudo, até mesmo das outras coisas, como tocar ao vivo.”

Sempre houve um certo mistério em torno do Darkthrone por causa disso, por ficarem mais nas sombras. Vocês pararam de tocar ao vivo cedo...

“No começo, estávamos empolgados para tocar ao vivo. Achávamos que era isso que as bandas deveriam fazer. Mas percebi que o Fenriz ficava cada vez mais nervoso com isso, e ele não gostava. Tocamos alguns shows, sim, na Noruega, Dinamarca, Finlândia. O último show foi no Rockefeller Music Hall, em Oslo, em 96. Mas estou feliz, porque podemos usar toda nossa energia sendo criativos, em vez de ver a cara um do outro todo dia e tocar ao vivo.”

Há sempre a grande questão de como seria a experiência ao vivo hoje. No Wacken, em 2004, quando você cantou músicas do Darkthrone com o Satyricon, havia um certo gênio na simplicidade de ter apenas cruzes em chamas no palco. Mas vocês são como o Bathory agora – há tantas ideias do que poderia ser, todas certas e erradas ao mesmo tempo...

“Sim. Se fôssemos fazer, levaria um ano para planejar, conseguir bons músicos, pensar em como deveríamos fazer, o que é muito complicado. Às vezes minha cabeça está num mundo de desenho animado, então penso: ‘Ok, imagino ser headliner do Wacken, e vamos dar a eles algo realmente maligno’. E, por isso, quero dizer que o lado maligno seria tocar apenas os álbuns mais death metal, ‘Soulside Journey’ e ‘Goatlord’. Isso sim é puro mal! Recebemos várias ótimas propostas, e recusamos todas. Você pode inventar mil desculpas, mas no fim das contas, não queremos tocar ao vivo. Não é para nós.”

Isso combina com um álbum como ‘Transilvanian Hunger’. Ele, por si só, já é uma expressão completa – soa realmente frio porque foi gravado em um estúdio portátil, a capa é uma fotocópia de uma foto. Mas quando você coloca o disco para tocar, já está ali dentro. Nem precisa ser tocado ao vivo para ser compreendido, quase.

“Com certeza. Essa era a expressão que queríamos. ‘Transilvanian Hunger’ foi um álbum muito apropriado para sua época. As coisas eram um pouco mais... digamos, tristes. A foto da capa, na verdade, foi feita para o ‘Under A Funeral Moon’, e foi fotocopiada. Não teria o mesmo efeito se fosse só a foto original. É uma questão de deixar um pouco mais ‘tosco’. Usamos o mesmo estúdio portátil para o próximo álbum, ‘Panzerfaust’. Gravei os vocais desse disco na casa do Fenriz. Era um dia de verão bem quente, e estávamos um pouco bêbados. Eu gritava como se não houvesse amanhã, usando o corpo todo. Olhamos pela janela e tinha alguém no jardim cuidando das flores.”

Você se arrepende do slogan que foi colocado na contracapa da primeira prensagem de ‘Transilvanian Hunger’?

“Eu não fiz aquilo. Estava morando na floresta. Não tive nada a ver com isso. Mas é estúpido. Conversei com o Fenriz sobre isso, e ele disse que foi a coisa mais idiota que já fez, e tem se punido desde então. É uma besteira. É estúpido.”