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Há 35 anos: R.E.M. alcança o estrelato com 'Losing My Religion'
Para quem procura o momento exato em que o R.E.M. explodiu na cena nacional, não precisa ir além de 'Losing My Religion'. Lançada em 19 de fevereiro de 1991, a música mudou tudo para a banda e para o rock alternativo.
De muitas formas, tudo aconteceu de maneira bastante orgânica. O guitarrista Peter Buck estava fascinado com a ideia de transformar um instrumento retrô como o mandolim em protagonista de uma canção de rock. O vocalista Michael Stipe refletia sobre o tema do amor não correspondido. Bill Berry só queria que sua bateria estivesse mais alta na mixagem. Então, um diretor de vídeo chegou e construiu tudo em torno de uma imagem inesquecível.
Após uma década de carreira, aqueles queridinhos do alt-rock se tornaram estrelas do pop de verdade. 'Essa música é adorada no mundo todo – é mesmo', comemorou Stipe mais tarde. 'Não foi culpa nossa. Simplesmente aconteceu – e é uma dessas coisas inexplicáveis, e temos muito orgulho disso.'
Segundo Buck, a composição levou apenas alguns minutos, como ele contou no encarte da coletânea 'In Time', de 2003. 'Na primeira vez que a banda tocou, tudo se encaixou perfeitamente.'
Depois, Stipe definiu o título. 'Algumas pessoas ainda acham que é uma música sobre religião; não é', ele esclareceu. 'É apenas uma música sobre ter uma paixão.'
Stipe buscou em suas raízes sulistas a expressão 'Losing My Religion', que significa 'perder a paciência' ou 'chegar ao limite', como explicou ao The New York Times. 'A música é uma expressão romântica e fala sobre alguém que sofre por outra pessoa. É sobre amor não correspondido. É uma atração obsessiva, aquele impulso hesitante e autoconsciente de revelar e ao mesmo tempo esconder sentimentos que você sabe que não são compartilhados.'
Uma hora depois, Buck contou que Stipe já havia terminado a letra. 'Enquanto tocava a música pela terceira ou quarta vez, fiquei profundamente emocionado ao ouvir os vocais junto com a música', lembrou Buck. 'Para mim, 'Losing My Religion' parece um tipo de arquétipo que estava flutuando no espaço e que conseguimos laçar. Se toda composição fosse assim tão fácil.'
Assista ao clipe de 'Losing My Religion' do R.E.M.
A gravação, por outro lado, foi um processo meticuloso.
Com Mike Mills no baixo elétrico e Berry na bateria, Buck começou a trabalhar uma progressão de acordes menores, semelhante a músicas anteriores do R.E.M., como 'Driver 8'. A diferença é que Buck trocou a guitarra elétrica pelo mandolim, de som agudo e solitário. Isso fez com que a demo resultante tivesse um 'ar oco', segundo Buck no encarte de 'In Time'. 'Não há absolutamente nenhum médio nela, só graves e agudos, porque Mike geralmente ficava bem nos graves do baixo.'
Para reforçar a faixa, Buck chamou Peter Holsapple, que ganhou fama no circuito universitário com o dB's antes de acompanhar o R.E.M. como guitarrista e tecladista na turnê do álbum 'Green'. 'Ele tocou violão acústico ao vivo nessa música', confirmou Buck, que também gravou toda sua parte de mandolim em uma única tomada – apesar de um erro notável. 'Foi muito legal: Peter e eu ficávamos em nossa cabine, suando, enquanto Bill e Mike estavam na outra sala, mandando ver. Tinha uma energia mágica.'
No meio do processo, Stipe acabou ficando só de cueca. 'Eu também fiquei muito quente porque estava todo empolgado', lembrou Stipe em 2017, 'então tirei a roupa e gravei a música quase nu.' No fim, isso ajudou a alcançar uma vulnerabilidade maior: 'É algo realmente emotivo, sincero, que acabou se tornando uma das melhores peças musicais que a banda já me deu', completou Stipe.
O produtor Scott Litt disse que 'Losing My Religion' foi finalizada após uma sugestão crucial de Berry. 'O Bill veio até mim e disse: 'Acho que a bateria podia estar mais alta', e ele estava certíssimo', contou Litt à Mojo. 'Os arranjos de cordas e os vocais talvez sejam mais memoráveis, mas a bateria é realmente importante. Ele até dobra o riff do mandolim no começo. A última mixagem da música foi 'bateria aumentada', e essa virou a versão final.'
Depois, a banda associou a música a outro elemento que marcava uma nova era: um videoclipe dirigido por Tarsem Singh, no qual Michael Stipe finalmente dublou a letra – algo que ele sempre se recusara a fazer antes de 'Losing My Religion'.
Singh chegou a Athens, na Geórgia, cidade natal do R.E.M., tendo dirigido apenas dois clipes anteriormente, incluindo 'Tired of Sleeping', de Suzanne Vega. Mas ele tinha uma ideia intrigante, ainda que incompleta, baseada em 'Um Senhor Muito Velho com Asas Enormes', conto de Gabriel García Márquez sobre um anjo que cai do céu e acaba relegado a uma condição de aberração.
'Fui ver o Stipe e os caras por um dia e meio. Só queria ver onde ele mora, o que faz', contou Singh à Rolling Stone em 2016. 'Faltava um detalhe na ideia, uma peça. Passei um dia com ele; à noite, fomos a uma balada. Vi ele dançar e pensei: 'É isso que faltava!''
Não havia coreografia definida; Stipe se movia com espontaneidade, misturando os movimentos bruscos de David Byrne no famoso clipe de 'Once in a Lifetime', do Talking Heads, com os de Sinead O'Connor em 'The Emperor's New Clothes'. Singh cercou tudo com uma série de cenas iconoclastas – embora, com o tempo, tenha passado a preferir a estética mais enxuta da apresentação do R.E.M. no MTV Unplugged.
'Tudo que precisava era o Stipe na frente de uma janela com a banda', observou Singh, referindo-se à cena mais simples do vídeo. 'No Unplugged, ele nem precisava da janela. Está sentado num banquinho, tocando e cantando, e é fenomenal. Eles não precisavam de nada disso. Estava tudo no ar.'
Nesse momento, porém, 'Losing My Religion' já era um dos clipes mais celebrados da época – e o maior sucesso do R.E.M. nas paradas americanas, chegando ao quarto lugar. O hit ampliou enormemente a base de fãs da banda, enquanto o álbum 'Out of Time' vendeu mais de 4 milhões de cópias. 'Losing My Religion' ganhou dois Grammys e seis prêmios no MTV Video Music Awards, incluindo o de videoclipe do ano.
Veja o R.E.M. tocando 'Losing My Religion' em Glastonbury
'Se você quer falar sobre algo que muda a vida, 'Losing My Religion' é o mais próximo que se pode chegar', disse Mills à Billboard. Ao mesmo tempo, ele acrescentou: 'Não faz sentido nenhum. Tem cinco minutos, não tem refrão e o instrumento principal é um mandolim. É perfeito para o R.E.M. porque desafia todas as regras.'
Mesmo assim, a banda acordou para um novo mundo. 'Passamos de vender alguns milhões com 'Green' para mais de 10 milhões', lembrou Buck na coletânea 'Part Lies, Part Heart, Part Truth, Part Garbage', de 2011.
Isso não agradou a todos os fãs antigos, que acompanharam o R.E.M. desde os tempos de banda indie e talvez quisessem manter o grupo só para si. Alguns chegaram a falar em boicote. Mas Buck, apesar do novo interesse por instrumentos de corda antigos, não olhava para trás.
'As pessoas que mudaram de opinião por causa de 'Losing My Religion'', disse Buck à Rolling Stone em 1991, 'podem simplesmente me dar as costas.'
