A trilha sonora de The Song Remains the Same, do Led Zeppelin, era empolgante e monumental. Livre das sequências oníricas que quebravam o ritmo do filme, o álbum ainda tinha seus próprios problemas: a exclusão difícil de entender de músicas importantes do longa e a sensação persistente de que a banda não havia correspondido à ocasião.
Ironicamente, The Song Remains the Same foi gravado durante três noites de julho de 1973 no Madison Square Garden, quando o Led Zeppelin vivia seu auge comercial. Com o tempo, tornou-se uma referência de uma era de excessos do rock sem paralelo antes ou depois — um testemunho do espetáculo em escala máxima. Mas aqueles shows em Nova York encerravam uma longa turnê, e o desgaste aparecia em alguns momentos.
Por isso, Jimmy Page sempre enxergou o projeto mais como um registro mediano do que como um marco da carreira. “Bem, não é uma noite terrivelmente boa nem terrivelmente ruim”, disse à Creem em 1977. “Certamente não é uma noite mágica, mas também não é... trágica.”
Como a tragédia afetou The Song Remains the Same
Infelizmente, quando The Song Remains the Same chegou às lojas, três anos depois, em 22 de outubro de 1976, a situação havia de fato tomado um rumo trágico. Em 1975, o carro de Robert Plant despencou de um penhasco na ilha grega de Rodes, deixando o cantor e sua esposa gravemente feridos.
Por cerca de um ano e meio, não se sabia se Plant voltaria a andar. Ele precisou participar das sessões do próximo trabalho de estúdio em uma cadeira de rodas. O afastamento do Led Zeppelin dos palcos acabaria se estendendo por quase dois anos.
Ouça “Dazed and Confused”, do Led Zeppelin.
Nesse intervalo, a banda lançou The Song Remains the Same para preencher o vazio, embora apenas sete meses tivessem se passado desde Presence, de 1976. O filme foi um sucesso de bilheteria, com arrecadação estimada em US$ 10 milhões em 1977, e sua trilha de grandes vendas permaneceu por anos como o único registro ao vivo do grupo.
Os críticos nem sempre foram generosos — e isso incluía os próprios músicos. “Não foi um grande filme”, admitiu Page em 1976, “mas não adianta dar desculpas. É apenas um retrato razoavelmente honesto de onde estávamos naquele momento”.
Plant foi ainda mais longe e chamou The Song Remains the Same de “uma grande bobagem”. Na época, motivos não faltavam.
Por que Jimmy Page criticou The Song Remains the Same
Além dos desconcertantes interlúdios não musicais do filme, o Led Zeppelin foi amplamente acusado de ceder ao próprio ego inflado. “Dazed and Confused” se arrastava por meia hora, enquanto outras quatro faixas ultrapassavam dez minutos. “Em The Song Remains the Same”, Page disse certa vez a Cameron Crowe, “você consegue ouvir a urgência, e pouca coisa além disso”.
Mais tarde, ele apontou um roubo nos bastidores antes do show como uma distração importante. Outros criticaram a edição de pós-produção do filme e do álbum. Afinal, a trilha original trazia “Celebration Day”, mas não “Black Dog”; no filme, acontecia o contrário. “Since I've Been Loving You” e “Bron-Yr-Aur” também ficaram fora da edição em vinil, enquanto outras músicas apareciam em tomadas diferentes.
Veja o Led Zeppelin tocar “No Quarter”.
Em 2007, uma reedição ampliada, acompanhada de novos textos de encarte assinados por Crowe, acrescentou seis músicas. Àquela altura, porém, a percepção pública de que o projeto havia fracassado parecia consolidada. Page certamente passou anos remoendo o assunto. Não fosse a longa pausa nas turnês, as coisas poderiam ter seguido outro caminho.
O guitarrista disse ter se sentido encurralado pelos prazos, pelas limitações de criar um filme complementar e pela necessidade de lançar um produto. Desde o fim dos anos 1970, planejava produzir um registro de show mais linear — algo que só se concretizaria em 2003, com How the West Was Won.
O legado duradouro de The Song Remains the Same
Ainda assim, era impossível negar a grandiosidade impressionante de The Song Remains the Same, com direito ao uso do arco de violino na guitarra, enquanto o Led Zeppelin levava sua música ao ápice. Apesar dos defeitos, talvez não exista documento melhor daquela era monumental do rock de arena. A banda também encontrou novas profundidades em momentos como “No Quarter”.
A trilha de The Song Remains the Same chegou ao topo das paradas britânicas e alcançou o segundo lugar nos Estados Unidos, onde conquistou certificação de platina quádrupla. Mesmo assim, Page continuou pensando no que poderia ter sido.
“Foi uma pena”, disse à Trouser Press. “Depois do acidente de Robert, fomos obrigados a concluir tudo. Já tínhamos trabalhado naquilo, e precisava sair. Foi gravado ao longo de três noites, mas, na verdade, a música usada nas imagens vinha principalmente da primeira noite. Foi a melhor apresentação vocal... mas eles simplesmente não tinham a filmagem completa.”
Isso obrigou a banda a “criar as sequências de fantasia para preencher as lacunas”, acrescentou Page. “Se fôssemos uma banda que toca igual todas as noites, teria sido muito fácil ligar a apresentação de uma noite à de outra. No caso dos álbuns ao vivo, a maioria dos grupos grava mais de meia dúzia de noites e escolhe o melhor — mas, como havia imagens, não podíamos fazer isso.”
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