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“Sempre estivemos em busca de algo com essa banda”: Como o The Scratch se tornou referência eclética do rock
“Acho que é o Paul McCartney…” Gary Regan sussurra com urgência para seus colegas do The Scratch. Inicialmente, os integrantes entenderam errado, achando que ele falava do técnico de futebol irlandês Mick McCarthy, mas logo seus rostos de confusão se transformam em incredulidade quando o lendário baixista dos Beatles sai da loja de instrumentos folk Hobgoblin Music, em Fitzrovia, para cumprimentar os quatro músicos. “Ele conversou com a gente por uns cinco minutos e falou sobre a mãe dele ser de Monaghan, na Irlanda”, conta o guitarrista e vocalista Conor ‘Dock’ Dockery. O baixista e conterrâneo de Monaghan, Cathal McKenna, vibra de alegria. Atento, Macca percebe que está diante de uma banda, o que o The Scratch confirma. “Ele disse: ‘É uma coisa incrível, uma banda, não é?’ É sim, Paul”, continua Dock. “Lango até convidou ele para ir ao pub. Acho que foi aí que ele decidiu ir embora…”
O pub mencionado por Daniel ‘Lango’ Lang (cajón, percussão e vocais) é o The Marquis, em Londres, onde a equipe da Kerrang! encontra o The Scratch pedindo fish and chips, bangers’n’mash e hambúrgueres de frango no andar de cima. Depois de já terem feito um show surpresa do Green Day em novembro de 2023, o animado pub de Covent Garden recebe o primeiro de dois shows pop-up que o The Scratch voou especialmente da Irlanda para realizar, preparando o terreno para o terceiro álbum, 'Pull Like A Dog'. Para efeito de comparação, o próximo show deles em casa será nos Jardins Iveagh, em Dublin, para 5.000 pessoas.
A trajetória do The Scratch parece estar em um ponto de virada, após conquistar festivais como Reading & Leeds e Download, além de turnês com os companheiros celtas Dropkick Murphys. Em meio a esses marcos, o dia que se desenrola parece uma viagem no tempo até a formação da banda, em 2016. “Esses shows são incríveis quando o clima é bom e a casa está cheia”, sorri Lango. “Acho que tocamos um tipo de música que funciona muito bem nesse tipo de ambiente. Um monte de gente suada, bebendo cerveja e dançando? Não tem como ser melhor.”
“Tocamos em uma banda de metal por muitos anos, e não dá para fazer busking ou tocar no chão de um pub com uma banda assim”, acrescenta Dock. “Era tudo muito novo para a gente. Lembro da liberdade de chegar, ligar a guitarra, sem frescura, nem engenheiro de som, e simplesmente tocar. As pessoas ficavam animadas. A novidade de não precisar de uma estrutura elaborada já era suficiente.”
A tal banda de metal era a Red Enemy, onde Dock e Lango tocavam antes de abandonarem o projeto para fundar o The Scratch. Sentindo-se desconectados do “tech-metal de ponta” da época, trocaram as guitarras de afinação baixa por acústicas e a bateria de dois bumbos pelo cajón, lançando o novo projeto sob uma perspectiva completamente diferente. “Pareceu um acidente feliz”, reflete Dock. “Trombamos com algo que soava interessante e novo para nós. Ficou meio viciante explorar isso por um tempo. Era algo muito fundamental: afinações abertas, violões acústicos. Eu tocava uma caixa. Esteticamente, parecia estranho, e para nós soava fresco, então não conseguimos evitar.”
Mas você não estaria lendo sobre o The Scratch na Kerrang! se eles fossem apenas uma banda folk. O DNA metálico, como Cathal define, está cada vez mais presente no som da banda, do riff sombrio de “Cheeky Bastard” à loucura à la System Of A Down em “Pull Like A Dog”. O single recente “Pullin’ Teeth” tem um breakdown digno de briga de bar. É com ele que abrem o set no The Marquis, que está lotado, com o público pulando desde o início.
Quando Gary substituiu Jordan O’Leary em 2024, essa herança pesada facilitou a integração. “Minha outra banda tocava muito com a Red Enemy, e eu e o Dock sempre conversávamos sobre guitarristas que admirávamos”, conta Gary. “Brent Hinds, do Mastodon, Lamb Of God, sempre falávamos dos riffs deles. Quando os caras me chamaram, [eu sabia] que a gente ia se encaixar bem como guitarristas. E eu também amo bluegrass, então tinha esse lado tradicional.”
“Como você se conecta – os ideais ou valores – é algo muito importante”, acrescenta Cathal, que entrou logo após a pandemia. “Poder confiar que [seus colegas de banda] são autênticos, que são quem dizem ser, e que são boa companhia – a música nasce disso. Você fica vulnerável numa jam, jogando uma ideia em tempo real sem saber se vai ser boa. E estar em um ambiente que te faz sentir bem é fundamental.”
